Opinião

Cortina de fumo

Há discursos que não pretendem responder aos problemas. Pretendem apenas escondê-los. Não resolvem, nem prestam contas, apenas ocupam o espaço e levantam nevoeiro. São uma cortina de fumo lançada sobre a realidade, na esperança de que, por instantes, deixemos de ver o que está mesmo diante de nós.
Foi isso que voltou a acontecer na Assembleia Legislativa Regional. Num momento em que os Açores enfrentam dificuldades sérias em áreas essenciais da governação, o Presidente do Governo Regional escolheu falar da importância geopolítica e geoeconómica dos Açores, da centralidade atlântica, da economia azul, do espaço e da grandeza estratégica da Região. O catálogo é bonito. Tão bonito que, por instantes, quase parecia estar a ler passagens do programa do Partido Socialista de 2020.
A diferença é que uma visão política não se mede pela solenidade do anúncio. Mede-se pela capacidade de a transformar em resultados. E é aí que a cortina se levanta e o discurso se desfaz.
Os Açores são, naturalmente, uma Região com valor estratégico. Sempre foram. Pela geografia, pelo mar, pela posição atlântica e pela capacidade de serem ponte entre continentes. Nada disto nasceu agora, nem resulta de uma súbita iluminação governativa. O que se exige a um Governo não é que descubra, em 2026, que os Açores ficam no Atlântico. É que saiba o que fazer com essa centralidade.
O problema é que este Governo fala a partir da estratosfera. Lá em cima, tudo é visão e potencial. Cá em baixo, a SATA consome recursos, a privatização arrasta-se, o HDES continua sem resposta, o turismo perde competitividade, o custo de vida aperta famílias e empresas, e a habitação permanece uma angústia social. A vida real não cabe nesta encenação.
Talvez por isso José Manuel Bolieiro tenha regressado ao território confortável da proclamação. Quando a governação falha, fala-se do Atlântico. Quando a realidade incomoda, convoca-se o futuro. E quando a imagem precisa de reparação, encena-se uma comunicação política que recentra o protagonista e adia respostas.
Um Governo que reage apenas quando o incêndio já lavra não pode apresentar-se como governo de visão. Pode, no máximo, apresentar-se como bombeiro.
Os Açores são importantes para Portugal, Europa e Atlântico. Mas essa importância não pode esconder falhanços internos. Ser estratégico começa na governação diária e na capacidade de transformar visão em resultados para as pessoas.